Artigo publicado originalmente no Caderno Especial da Feira do Livro do Jornal Zero Hora
ZERO HORA
Porto Alegre, 04 de novembro de 2003. Edição nš 13954
Artigo
Gilgamesh e a eterna luta contra a morte
CELSO GUTFREIND/ Escritor e psiquiatra
O escritor francês Albert Camus defendia a tese de que todo romance tinha como pano de fundo uma idéia que ia desenvolvendo sob a forma de ficção. Acabou desmentido pela sua própria ficção, que nunca coube numa idéia só. Zigurate - Uma Fábula Babélica (Rocco, 223 páginas), o romance mais recente de Max Mallmann, gira em torno da idéia da imortalidade. E conta a luta contra a morte já anunciada de Sophie Brasier, soropositiva há 10 anos. Sophie, porém, só pensa na vida e realiza uma tese de doutorado na Universidade de Paris. O tema de sua obra científica se mistura com a angústia de sobreviver; afinal, se ela desenvolve um trabalho em torno da influência suméria no Antigo Testamento, tudo parece um pretexto para provar que a Bíblia nada mais seria do que a retomada de um texto ainda mais antigo, no qual homem e mulher nasceram imortais. Até aqui tudo bem para a idéia de Camus. E o livro de Max não passaria de uma metáfora da luta contra a morte, especialmente quando a morte se anuncia sem metáforas. Mas para desenvolver essa idéia simples e terrível, Mallmann utiliza recursos narrativos costurados por uma imaginação sem limites. O zigurate, um símbolo sumério, inspirou lendas (Torre de Babel) e é anunciado como fábula nesse romance que propõe a releitura do mito de Gilgamesh, o lendário rei sumério que tentou fazer de tudo para não morrer. A partir dos mitos, e na busca impossível de suas origens (o folclorista russo Vladimir Propp também a tentou em vão), o autor conta uma história que atravessa a própria história das civilizações.
Por mais que pareça propor que o nosso mito maior expressa o desejo de não morrer, Max Mallmann o faz conversando de forma erudita com as narrativas populares. E, assim, torna impossível não negociar outros sentidos, talvez o nosso sentido maior, segundo Jerome Bruner. Que cada leitor negocie à sua maneira: a minha agora pensa que Camus mais uma vez se enganou. Pior para a idéia, melhor para os leitores dessa obra que parece apresentar um alto risco de sobreviver.
Celso Gutfreind, escritor e psiquiatra, autor de Sigmund Freud (Tomo Editorial) e O Terapeuta e o Lobo (Casa do Psicólogo)
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